A cada vez que eu vejo o nome de Isabella na mídia, eu peço a Deus para que essa seja a última notícia sobre ela.
Hoje aconteceu a mesma coisa. Com a proximidade do dia das mães, lá estava a menininha na TV de novo. Não, não foi dessa vez que minhas preces foram atendidas. Talvez eu as renove amanhã, ou depois; ou perto do Dia dos Namorados, confiante de que ela ainda era muito novinha para ter um.
O fato é que hoje foi bom terem falado dela. Acabei lembrando de um livro do José Saramago, sobre o qual já foi postado um comentário neste blog.
O romance "Todos os nomes" fala da obsessão de um escriturário em buscar informações sobre uma mulher desconhecida. Sim, isso mesmo: em quase todo o livro, ela é assim definida, sem nome algum.
Isabella tem o seu nome. Nesse ponto, ela se afasta da personagem criada pelo escritor lusitano. Entretanto, se aproxima em outros aspectos. Como o fato de José, um homem que nada tinha a ver com a mulher desconhecida, passar a guiar sua vida em busca de saber quem ela era.
O nome de tal mulher chegou às mãos do escriturário em um documento qualquer. Aconteceu o mesmo com Isabella. A diferença é que o documento da primeira era de vida. Já da pequena que passa a todo instante na mídia, não é preciso comentar.
Coincidência ou não, na procura incansável feita por José, o escritor Saramago mostra a morte como um retrato inseparável da vida. Os motivos que a levam, segundo um dos personagens criado pelo lusitano, só poderiam ser compreendidos pela análise não dos últimos minutos, mas pelos diversos outros dias, meses e anos que o antecederam.
Infelizmente, isso pouco tem acontecido na investigação da morte de Isabella. O perfil dos pais da menina é construído com base em depoimentos alheios, pessoas que ouviram gritos e brigas pouco comprováveis e só. Não se percebe, entretanto, os quase sete anos anteriores em que, pelo que se supõe, nada semelhante aconteceu.
O resgate da lembrança de "Todos os nomes", em meio ao noticiário diário, vêm trazer uma nova forma de pensar os limites da vida e da morte. Para as estantes infinitas de arquivos da "Conservatória de Registro Civil" em que José trabalha, é proposta uma nova organização de todos os nomes. Segundo a visão do chefe do local, documentos de pessoas mortas e ainda vivas devem ficar juntos, não mais em estantes separadas. Trata-se de uma tentativa de tornar a morte mais aceitável e fazê-la ser menos observada pelos homens.
Se isso acontecesse nos dias atuais, Isabella teria muito menos espaço nos jornais e televisões brasileiras. Ela seria mais uma peça de um quebra-cabeça do qual todos fazemos parte. Com a reorganização dessa forma de pensar, teríamos muito mais notícias sobre quem ainda vive. E, querendo ou não, sobre quem ainda sofre.
...Ou sonha, caso seja permitido um final mais poético - e clichê - para este post.